«Ramalho Eanes não fazia vontade ao Governo nem tirava ‘selfies’»

«Ramalho Eanes não fazia vontade ao Governo nem tirava ‘selfies’»

Na estreia do programa ‘Ironias do Destino’, série do Porto Canal que tem por base histórias narradas por Pinto da Costa desde 1982, ano em que foi eleito para o primeiro mandato na Direção até à atualidade, o presidente do FC Porto recordou que não tinha expectativas de ser presidente do clube, recordou os conselhos da mãe e relatou a história da compra de Fernando Gomes ao Gijón por 20 mil contos, elevando a grande personalidade do antigo presidente da República, Ramalho Eanes.

 

«Nunca esteve nas minhas previsões, quando deixei o cargo de diretor de futebol em 1980, ser presidente do FC Porto. As coisas estavam a correr mal no futebol fui abordado por um grupo de portistas e disseram-me que havia descontentamento e era necessário formar um grupo candidato às eleições do FC Porto. Estava disponível para ser diretor de futebol e nada mais do que isso, o que todos aceitaram. Fomos a vários locais e o movimento ganhou impacto junto dos sócios e adeptos. O nosso programa era muito ambicioso, prometemos o regresso do Pedroto, que estava garantida se fôssemos eleitos e outra era o regresso do Fernando Gomes», contou.

 

Os principais tópicos do primeiro programa:

 

Desafiado a ser presidente: «Chegou a um ponto em que o presidente Manuel Couto, industrial e um grande portista, era o meu candidato. Marcámos um jantar num restaurante em Grijó e acreditava que íamos fazer tudo que estava no programa ele olhou para mim e disse-me: ‘Mas você ainda não percebeu que o presidente é você?’. Eu disse que não tinha vida para isso. O grupo insistiu, tinha de ser, tinha de ser…»


Conversa com a mãe para pedir conselho: «Era um sábado e ia sempre almoçar a casa dela e antes de falar do assunto ela perguntou-me se sempre ia para a direção do FC Porto. O que a mãe acha? Pensei que ia dizer ‘nem penses nisso’, mas não. Disse: ‘Tu gostas do FC Porto e as pessoas do Porto gostam de ti. Disse que era o destino. Até lhe disse que era a ironia do destino…»

20 mil contos por Fernando Gomes: «Fomos na semana seguinte a tomar posse a Gijón falar com o presidente. Vendia o Gomes por 20 mil contos, que era muito dinheiro na altura, e eu, sim senhor! Ficou prometido um jogo de apresentação com o Gijón para ajudar a pagar. O Gomes tinha uma lesão problemática no tendão de Aquiles e eles pensavam que o Gomes dificilmente voltaria a jogar. Marcou três golos num jogo e eles ligaram-me a dizer que queriam os 20 mil contos em cash, em dinheiro e nós sem um tostão. Pedi a um banco, tinha um amigo. Perguntou-me se o Gomes vinha e eu respondi que precisava dele: tinha de entregar 20 mil contos ao Gijón. Se lhe trouxesse uma livrança avalizada pelo Manuel Couto, pessoa de muitas posses, teria o dinheiro. Este, por sua vez, também perguntou se o Gomes vinha, todos queriam saber. Disse-lhe que dependia dele. O Gomes veio, e o presidente do Gijón, espantado, disse: «Estou muito admirado, pensava que o FC Porto não tinha dinheiro». «Dinheiro não nos falta, respondi (risos).»

Ramalho Eanes: «Foi importantíssimo e dos melhores momentos da minha carreira como presidente o conhecimento que travei com o então presidente da República. Nessa altura era realmente o presidente de todos os portugueses e garante da democracia em Portugal, não era de andar a tirar selfies, dar beijinhos e de fazer a vontade ao Governo. Liga-nos uma grande amizade, respeito e admiração.»

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 + três =