Porque é que as contas do Benfica voltaram ao vermelho oito anos depois

Porque é que as contas do Benfica voltaram ao vermelho oito anos depois

Pela primeira vez desde 2013, a SAD do Benfica apresentou um resultado financeiro negativo nas contas anuais. Nas últimas sete temporadas, a sociedade encarnada tinha conseguido sempre terminar as temporadas com lucro, e com lucros todas as épocas superiores a 14 milhões de euros.

Na última temporada, as contas da SAD voltaram ao vermelho, tendo sido comunicado um prejuízo de 17,4 milhões de euros, o que significa não só o regresso aos resultados negativos, mas também o pior balanço anual da sociedade nos últimos dez exercícios.

O Relatório e Contas fala, naturalmente, de circunstâncias excecionais para justificar este prejuízo, provocadas pela pandemia. Mas a covid-19 não é a única razão.

O Maisfutebol foi olhar para as contas da SAD encarnada, as quais permitem perceber também que o resultado negativo é decisivamente influenciado pelo falhanço desportivo que significou o não apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões.

Por exemplo, o Benfica recebeu menos 21,6 milhões de euros do que na época anterior com rendimentos televisivos, o que é justificada com a ausência do valor dos direitos dos jogos da Champions. Os rendimentos de Media TV são aliás os segundos piores dos últimos seis anos.

«Os rendimentos de media TV atingem o montante de 65,7 milhões de euros e continuam a ser a principal fonte de rendimentos da Benfica SAD, excluindo os rendimentos com transações de direitos de atletas. Contudo, esta rubrica sofreu uma diminuição de 21,6 milhões de euros, que representa um recuo de 24,7 por cento, justificada pelo facto de não se ter alcançado a fase de grupos da Liga dos Campeões», pode ler-se no Relatório e Contas.

De resto, os rendimentos comerciais caíram também fortemente, registando os piores números dos últimos sete anos, e neste caso, sim, a única explicação tem a ver com a pandemia.

«Os rendimentos de commercial ascendem a 27,9 milhões de euros, tendo-se verificado um decréscimo de 8,6 por cento», explica o Benfica, justificando que a pré-época de 2020/21 não gerou qualquer tipo de rendimento, enquanto na época passada tinha havido um cachet importante possibilitado com a digressão para participar na International Champions Cup.

Por fim, e numa época em que não houve público nos jogos, os ganhos com a rúbrica matchday são praticamente inexistentes e os piores de sempre. «Totalizam 459 milhares de euros e dizem respeito à bilheteira do jogo em casa com o Standard Liège, da fase de grupos da Liga Europa (no qual foi possível a presença de 7,5 por cento da capacidade do estádio.»

Ora a verdade é que os rendimentos operacionais, sem contar com transações de jogadores, caíram 46 milhões de euros em relação ao ano anterior. O que é um valor muito elevado e que permitiria, por exemplo, tirar as contas da SAD encarnada do vermelho.

A última época, de resto, foi ainda assim, uma das melhores relativamente a ganhos com transferências de jogadores. O Benfica somou 100 milhões de euros com vendas de passes de atletas, o que significou o terceiro melhor ano neste aspeto entre os últimos dez.

Isto, recorde-se, numa época em o poder financeiro dos clubes estaria à partida condicionado pela crise provocada pela pandemia.

«Num período em que se assistiu a um arrefecimento generalizado do mercado de transferência de jogadores, a Benfica SAD conseguiu concretizar a alienação dos direitos do atleta Rúben Dias para o Manchester City, que contribui para uma parte considerável dos rendimentos alcançados», diz o Relatório e Contas.

Ora como já se viu, os rendimentos totais, incluindo os ganhos com transferências de jogadores, caíram cerca de 90 milhões de euros de 2019/20 para a época anterior. O que é mau. Mas tornou-se pior, e tornou-se decisivo para o prejuízo final, porque os gastos não acompanharam essa queda.

Os gastos operacionais, excluindo gastos com contratações, foram de 206 milhões de euros, praticamente em linha com o que tinha acontecido na época anterior: 211 milhões euros.

Ou seja, apesar da pandemia, apesar da ausência de público das bancadas, apesar do afastamento da fase de grupos da Liga dos Campeões, o Benfica manteve os gastos muito elevados. Os gastos com o pessoal, ou seja, custos com remunerações fixas e variáveis, até aumentaram 12 milhões de euros no último ano, para quase uns astronómicos 100 milhões de euros.

Perante tudo isto, importa também dizer que a dívida do Benfica aumentou em quase um terço. Há um ano a SAD devia 98 milhões de euros, agora deve praticamente 145 milhões, o que é justificado com a emissão do empréstimo obrigacionista no valor de 50 milhões de euros.

Há um ano, a SAD não tinha empréstimos obrigacionistas, tendo reembolsado dois no valor de 25 milhões e 48,4 milhões de euros, nos meses anteriores ao fecho das contas anuais.

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