Geração de ouro passou «escadaria do inferno» para ganhar Mundial sub-20 na Luz

Geração de ouro passou «escadaria do inferno» para ganhar Mundial sub-20 na Luz

30 de junho de 1991. É uma data que perdura orgulhosamente na memória do futebol português. Depois de um empate a zero no tempo regulamentar, Portugal vence o Brasil no desempate por penáltis (4-2) e conquista o título mundial de sub-20. Na bancada há 127 mil espectadores em festa, naquela que foi a segunda maior assistência de sempre em provas da FIFA.

Portugal revalidava assim a conquista de março de 1989, em Riade, graças aos penáltis convertidos por Jorge Costa, Luís Figo, Paulo Torres e Rui Costa, enquanto o Brasil, então bicampeão mundial, com Roberto Carlos e Paulo Nunes na equipa, perdia a final por força dos penáltis falhados por Élber e Marquinhos.

Três décadas depois, Carlos Queiroz diz que Portugal passou pela «escadaria do inferno», ao defrontar o Brasil nas duas edições da prova. «Não haja dúvida de que o jogo dos jogos em 1991 é como em 1989. Ganhar dois títulos mundiais deixando o Brasil para trás é memorável, porque não é ganhar contra qualquer um, mas passar a escadaria do inferno toda. Sabe melhor atravessá-la antes de nos divertirmos no céu com os resultados obtidos», afirma o então selecionador, em declarações à agência Lusa.

A preparação dos penáltis não foi negligenciada, e revelou-se determinante. «A preparação foi sistemática, mas baseada num princípio: um penálti em cada treino por jogador, à semelhança daquilo que são as condições emocionais do jogo. Muitas vezes, trabalha-se penáltis para treinar a batida, corrida e colocação. Depois, combina-se a tensão emocional com a exigência técnica, pois o jogo só dá uma oportunidade», explica Queiroz.

Os pontapés da marca de onze metros já tinham tramado Portugal no Euro 1988 de sub-17 e no Euro 1990 de sub-19, pelo que a preparação em 1991 foi constante, e com a lista de batedores bem definida: «Claro que defini os penáltis como objetivo fundamental na preparação da final de 1991. Tínhamos uma lista em que acreditávamos e eles estiveram perfeitos.»

Carlos Queiroz recorda que os jogos do Mundial «foram todos jogos diferentes, até pelas suas características». O primeiro é sempre um jogo de entrada, indefinido e um pouco ansioso. Acho que o duelo que esperávamos que fosse mais difícil tornou-se relativamente mais fácil pela conduta dos argentinos. A partir daí, apanhámos uma equipa da Austrália muito boa, estruturada e difícil», enquadrou.

Carlos Queiroz indica o jogo frente ao México, nos quartos de final, como um dos jogos mais difíceis de vencer, até porque só foi decidido no prolongamento. «Foi uma dor de cabeça. Como costumo dizer às vezes a brincar, foi daqueles jogos que deviam ser jogados com duas bolas, porque precisávamos dela para jogar melhor e ganhar, mas os mexicanos não deixavam e causaram algum nervosismo nos nossos jogadores», admitiu o então selecionador sobre o jogo que Portugal venceu com golo de cabeça de Toni no tempo extra, depois de empatar 1-1 no tempo regulamentar.

O segredo da seleção que venceu este Mundial no “velhinho” Estádio da Luz foi a confiança, independentemente do adversário que aparecia pela frente. «Quando começava o jogo, acho que às vezes nem sabiam quem iam defrontar e já só tinham uma coisa na cabeça, que era acabar, ganhar e andar para a frente. Isso também foi o resultado de uma etapa de confiança e autoestima que cresceu dentro da própria seleção», defende Queiroz.

A organização do Mundial de sub-20 em solo nacional deu maior importância à revalidação do título, aumentando a responsabilidade da equipa das quinas. «Trouxemos as cores da bandeira e do país para as janelas. Foi a primeira vez que se criou essa dinâmica do 12.º jogador fora do campo com a camisola da seleção. No fim de contas, levámos 127 mil pessoas com as portas da Luz a fechar e mais uns quantos lá fora do estádio. Um momento marcante para uma jornada de continuidade», apreciou o então selecionador.

Para trás ficaram duas gerações «consistentes e de enorme disciplina coletiva». Mesmo tendo disputado 12 das 22 fases finais, nas quais se destacam um terceiro lugar em 1995 e uma final perdida com o Brasil em 2011, Portugal nunca mais venceu o Mundial de sub-20.

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