As cores de Budapeste

As cores de Budapeste

«Como é que você escreveu ‘Budapeste’ sem nunca lá ter estado?», perguntou uma vez Miguel Sousa Tavares em conversa com Chico Buarque. A resposta está ao nível do génio musical e literário com um toque de malandragem carioca: «E você, Miguel? Viveu nas roças de São Tomé no início do século XX para escrever ‘Equador’?»

«Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei. Era o Danúbio, mas não era azul. Era amarelo. A cidade toda era amarela. Os telhados, o asfalto, os parques. Engraçado isso, uma cidade amarela. Eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela», refletia o ghost writter José Costa, que viria a tornar-se Zsoze Kosta no romance de Chico.

Chegámos a Budapeste à noite. À hora em que as cidades são de um negro profundo e de um dourado reluzente.

Com um ar seráfico, guardas pedem-me a documentação: passaporte, carta convite do governo húngaro, carta convite da Federação Húngara de Futebol, folha de passagem na fronteira, declaração da entidade empregadora, dois testes negativos à covid – um com 72 horas e outro com 24 horas de antecedência.

Exceto um arriscado «business trip?», mais nenhumas palavras foram trocadas num país onde encontrar quem fale inglês não é tarefa fácil. O aeroporto internacional Ferenc Liszt estava deserto. E, aí, Budapeste pareceu-me de um cinzento frio e soviético.

Algum calor na receção era apenas dado pelo expressivo cartaz do Euro 2020, com os ícones da cidade em tons garridos e uma mensagem: «Üdvözöljük Budapesten.» Haja alguém a dar boas-vindas.

Ao longo do primeiro dia, esta cidade monumental foi florescendo e ganhando outros tons.  

Budapeste é amarela? Também. E de tantas outras cores.

Esta quinta-feira, Dia de Portugal, quando a Seleção Nacional pisar solo húngaro, podem crer que será vermelha e verde.

«O Caderno de Puskás» é um espaço de crónica do jornalista Sérgio Pires, enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020.

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